18/06/2010, Envolverde
Roberto Sávio
Roma, junho/2010 – O alcance da reforma do setor financeiro agora fica claro, após dois acontecimentos tão dramáticos como a crise dos bancos de 2008 e a crise do euro de 2010. Hoje, a economia é um automóvel que utilizou seu único estepe, enquanto continua circulando por espinhosos caminhos.
Nunca antes, fora o distante 1929, as finanças causaram tantos danos na economia real, nos trabalhadores, nas famílias e nas sociedades. Os resultados da especulação sobre o euro estão à vista e os pensionistas do sul da Europa têm uma opinião clara de tudo isto. A crise do euro de 2010 chega a um saldo de US$ 1 trilhão, com os Estados gravemente endividados e sem capacidade financeira para enfrentar próximas crises.
O problema tinha apenas duas vias de solução: ou se restaurava o mundo financeiro anterior a 1981, quando chegou o presidente Reagan e começou o processo de liberalização continuado por Clinton e Bush, ou se tentava controlar o atual sistema.
Vários destacados economistas, como o ex-presidente do Banco Central Norte-Americano, Paul Volcker, queriam que se voltasse ao projeto anterior. O grande coro dos setores financeiros e de seus grupos de pressão tentava fazer com que as limitações fossem mínimas, com o argumento de que todo controle limita a inovação e o desenvolvimento.
Os projetos em marcha na Europa e nos Estados Unidos optam por limitar os excessos, sem enfrentar o sistema. Haverá melhorias indiscutíveis, já que são eliminados vários mecanismos especulativos que levaram à crise atual. Porém, não haverá retorno à época anterior a Reagan. Em outras palavras, o conceito “especular é legítimo” não está em discussão. Este fato nos mostra que estamos vivendo em outra época cultural. Até 1980, especulação era um termo negativo. Na década de 50, um importante financista causou escândalo ao teorizar que um empresário deveria ganhar 20 vezes mais do que seus trabalhadores. Nessa época, seria impensável um financista judeu como Madoff roubar dinheiro de outros judeus, entre eles o prêmio Nobel da Paz, Elie Wiesel.
O mundo das finanças se baseava na economia real, a bolsa no rendimento das empresas e os bancos nos depósitos de seus clientes. A eliminação de regras e controles criou gerações de financistas que inventaram instrumentos de maior risco e, portanto, de maior lucro. Isto gerou a cultura especulativa atual, legitimada pelo mundo da política e dos governos, que agora escolhem a opção mais fácil: eliminar os excessos.
Contudo, a especulação tem um espaço legitimado no mundo atual. É um fato singular que sejam os operadores de bolsa, e não os representantes eleitos pelos cidadãos, os que decidem o destino de milhões de pessoas e que, para impor-lhes limites, os governos e as instituições europeias, que são incapazes de advertir a falsificação dos orçamentos gregos, agora tenham de empreender uma política de ajustes fiscais que mudará profundamente o quadro social europeu e o destino de seus jovens. Em outras palavras, os governos não colocam suas contas em ordem para o bem dos seus cidadãos, mas para resistir aos especuladores. De uma política de planos de equilíbrio e desenvolvimento se passa a planos de ajuste estrutural pagos pelas classes mais pobres e uma vez mais dependentes.
No caso da Grécia, nem ao Banco Central Europeu e nem ao Fundo Monetário Internacional ocorreu optar pela reestruturação da dívida, espaçando em vários anos o pagamento aos credores e permitindo um ajuste estrutural progressivo. O brutal modelo escolhido, provavelmente deterá agora todo crescimento. Entretanto, a ninguém ocorre impor limites às operações financeiras para deter a corrida ao risco mais alto e, por fim, que mais remunera. Um exemplo seria colocar limites modestos, em nível com os ganhos das empresas da economia real, com o que as bolsas podem perder ou ganhar em um dia de transações. Não há dúvidas de que assim se perderia muitos ganhos, mas de quantas pessoas? Porque os riscos de uns poucos cidadãos hoje estão sendo pagos por outros muitos milhões.
E assim é: para cada novo milionário em euros, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 500 pessoas caem da classe média para a pobreza. No novo mundo em que entramos, a brecha entre o tempo público e o privado é enorme. Das transações nas bolsas, 80% são feitas por computadores em segundos. Os governos europeus, pelo contrário, precisam de várias semanas para chegar a um acordo sobre medidas destinadas a frear a especulação. Nesta competição, o óbvio perdedor é o Estado. Um Estado que, enquanto limita os danos da droga e do tabagismo, porque afetam a humanidade, considera lícito que milhões de pessoas sejam vítimas de especuladores.
Para ter uma ideia do mundo irreal em que estamos entrando, podemos ler um informe do New York Times do dia 22 de maio. O órgão fiscal norte-americano (IRS) decidiu que os denunciantes de fraudes recebam uma porcentagem das quantias recuperadas pelo Estado. Isto é para os famosos fundos de risco (hedge funds) uma oportunidade de ganho: estão contatando os denunciantes para que cedam as compensações em troca da antecipação da quantia que terão direito sem terem de esperar os dois ou três anos do trâmite judicial.
David Desser, cuja empresa se especializa em litígios financeiros, afirma que “quando o IRS expedir seu primeiro cheque, mais e mais pessoas se darão conta de que este é um novo setor suscetível de ser monetarizado”. Qual é a capacidade de um Estado para poder imaginar e regulamentar a monetarização dos prêmios por denúncias fiscais e seu tempo de resposta? Como a hidra da mitologia grega, para cada cabeça cortada nascem outras sete. Chegará o momento em que colocaremos a hidra no justo lugar que lhe cabe, isto é, a mitologia? IPS/Envolverde
* Roberto Sávio é fundador e presidente emérito da agência de notícias Inter Press Service (IPS).